Artigo do jornal Público e dissertação sobre os números de um negócio anunciado como medida inovadora
Colaboradora da vereadora da Educação
Assessora camarária fica com um quarto das aulas de Inglês das escolas de Lisboa
23.09.2005 - 09h49 José António Cerejo PÚBLICO
http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1233611&idCanal=74
[ Nota: os comentários a verde não fazem parte da notícia original (autoria deste blogger) ]
As aulas de Inglês em quase um quarto das 96 escolas do 1º ciclo do ensino básico de Lisboa vão ser asseguradas, este ano lectivo, por uma empresa de que é proprietária a escritora Maria João Lopo de Carvalho, assessora da vereadora da Educação e Acção Social da Câmara de Lisboa, Helena Lopes da Costa.
A escolha dos parceiros responsáveis pelo ensino daquela língua coube aos conselhos executivos dos 31 agrupamentos escolares da cidade, que dependem directamente, a nível de instalações e de outros apoios, do gabinete da vereadora onde a escritora é a principal interlocutora das escolas. As propostas da empresa Know How, de que Maria João Lopo de Carvalho é gerente e única sócia, foram aceites por nove agrupamentos (que agregam 25 escolas) e foram já homologadas pelo ministério. [meras coincidências, sem dúvida]
Os restantes 22 agrupamentos escolheram um total de dez outros parceiros, entre institutos privados de línguas (cinco para 17 agrupamentos), associações de pais (três para três agrupamentos) e juntas de freguesia (uma para dois agrupamentos).
A possibilidade de as escolas providenciarem o ensino gratuito do Inglês aos alunos do 3º e 4º ano de escolaridade foi objecto de um despacho governamental de 24 de Junho, que fixa em cem euros por ano e por criança [ver nota] o valor a pagar pelo Ministério da Educação aos parceiros seleccionados. Para avaliação das propostas desses parceiros, o ministério fixou diversos critérios, entre os quais "a experiência demonstrada pelas entidades ao nível da promoção do ensino precoce da língua inglesa".
No caso da empresa Know How, criada em 1988 por Maria João Lopo de Carvalho e por um sócio para ensinar Inglês, alguns responsáveis de outros institutos de línguas concorrentes às escolas de Lisboa garantiram ao PÚBLICO que ela não tem há muitos anos qualquer actividade nesse domínio. A sua escolha por nove dos agrupamentos escolares da cidade provocou também mal-estar entre muitos professores, que não percebem o motivo dessa opção, mas não deixam de a associar ao facto de a dona da empresa ser assessora da vereadora.
"Modéstia à parte, faço isto muito bem"
"Fui escolhida, porque apresentei um programa pedagógico melhor que os outros e só por isso", diz Maria João Lopo de Carvalho. "As pessoas conhecem-me, sabem como sou organizada e como trabalho. Além disso, as minhas propostas foram as primeiras a chegar. O despacho é de 24 e logo a 25 mandei as propostas [dá jeito ter acesso a informação privilegiada!]", acrescentou.
A empresária confirma que a Know How já não dá aulas a crianças desde meados dos anos 90 [isto é como andar de bicicleta, numa mais se esquece], mas tem mantido sempre a sua actividade como representante em Portugal de colégios ingleses que organizam cursos de férias [representar colégios que organizam cursos de férias e dar aulas é a mesma coisa, está claro! ah! mas são ingleses; assim é diferente], em Inglaterra, para aperfeiçoamento da língua.
Maria João Lopo de Carvalho salienta que a Know How "foi a primeira escola em Lisboa a ensinar Inglês extra-curricular a crianças entre os quatro e os 12 anos." Essa actividade foi exercida durante alguns anos a partir de 1988, numa escola própria, mas o estabelecimento foi encerrado há quase uma década.
Confrontada com as críticas que lhe são feitas, a escritora garante que não foi ela quem fez os contactos com os conselhos executivos, mas sim uma sua colaboradora. No entanto, acrescentou: "Cheguei ao pé dos agrupamentos e disse: eu estou na câmara mas sei que, modéstia à parte, faço isto muito bem. Vou ter os melhores livros e os melhores professores. [então, contactou ou não os conselhos executivos? e como os outros concorrentes não terão dito nada disto...]"
"Para mim, concorrer com a Know How é um dever cívico [já lhe vi chamar oportunismo], porque sei que faço isso muito bem [larga experiência adquirida a representar colégios ingleses]. Sei fazer isso bem e sei que os 30 a 40 professores treinados por mim [esta senhora é um poço de surpresas! então não é que ela agora é também um magistério primário] vão ser uma mais-valia para os meninos de Lisboa."
Quanto à sua ligação à câmara, Maria João Lopo de Carvalho - que este Verão chegou a ser apresentada como candidata do PSD à Câmara de Vila Franca de Xira, mas depois desistiu [se calhar o negócio das aulinhas era melhor...]- diz que nunca a escondeu a ninguém e que se comprometeu a deixar a autarquia no dia das eleições. "Não há incompatibilidade legal nenhuma nesta situação, mas acho que não é bonito", conclui a escritora, justificando assim a sua prometida saída da câmara. [mas usar a sua influência decorrente dum cargo político já é; estamos sempre a aprender.]
Comentário
De que verbas estamos a falar neste negócio das aulas de inglês para o 1º ciclo?
Segundo o referido despacho do Ministério da Educação, o Inglês será ensinado "em regime de complemento educativo e de frequência gratuita, com uma duração semanal correspondente a 135 minutos" de aulas.
Questão nº 1: Qual é a receita bruta gerada por cada professor que leccione unicamente estas aulas?
Partindo destes dados:
- se uma turma tiver em média 20 alunos (têm mais);
- 100 euros por ano e por criança (definido pelo despacho do M.E.);
- 135 minutos (2.25 horas) de aulas por semana (definido pelo despacho do M.E.);
- o calendário escolar para 2005/06 (ver http://www.educare.pt/exames/calendario/calendario_novo.asp) representa 37 semanas de aulas.
- carga lectiva média dum professor no ensino oficial = 22 horas semanais;
- como as crianças estão agrupadas em turmas, cada turma terá 2.25 horas de aulas por semana;
- Portanto as 22 horas semanais dum professor são suficientes para 22/2.25=9.78 turmas; ou seja, arredondando o valor anterior, cada professor terá em média 10 turmas.
- Por outro lado, 10 turmas correspondem em média a 10*20=200 alunos;
- 200 alunos correspondem a uma verba anual de 200*100 = 20,000 Euros.
Conclusão n.º 1: Cada professor é responsável por gerar uma receita bruta anual de 20, 000.00 Euro.
A sr.ª Maria João Lopo de Carvalho fala ter treinado 30 a 40 professores, portanto
Conclusão n.º 2: 30 a 40 professores gerarão uma receita anual média de 600,000 a 800,000 Euros. Valores por baixo, pois partiu-se de turmas com 20 alunos, quando na realidade têm mais.
Questão n.º 2: Qual é o lucro que um negócio destes poderá gerar?
- se um professor gera uma receita anual de 20,000 Euros;
- se há 37 semanas de aulas, estas serão leccionadas no normal período lectivo dum ano, ou seja, de meados de Setembro a meados de Junho. Isto são 10 meses;
Portanto é necessário estabelecer um contrato com um professor durante 10 meses, o que não levanta problema desde que seja a "recibo verde". Não sendo difícil encontrar no mercado professores a pedirem 500 Euros mensais "líquidos" em troca de prestação de serviços a "recibo verde", então:
- Para se ter 500 Euros líquidos, é necessário incluir 11.5% para a Segurança Social e 30% para IRS. Ou seja, é necessário pagar ao professor 500 * (1 + 0.115 + 0.3) = 707.5. Sejamos genererosos e arredondemos para 1,000 Euros!
- cada professor representa um custo de 1,000 * 10 meses = 10,000 euros anuais.
- adicionemos mais 1,000 euros anuais por professor para despesas seja lá do que for (materiais didácticos por exemplo; mas isto são suposições, pois o decreto lei não obriga a isto).
Conclusão n.º 3: cada professor gera um lucro bruto de 9,000 euros anuais (20,000 - 10,000 - 1,000).
Conclusão n.º 4: 30 a 40 professores gerarão um lucro bruto de 270,000 a 360,000 euros anuais.
Uma vez que o salário da sr.ª
Maria João Lopo de Carvalho ainda não foi contabilizado, este lucro bruto pode converter-se no seu salário, por forma que a despesa e o lucro bruto se anulam. Não havendo IRC a pagar.
Questão n.º 3: Que salário líquido sobra para a sr.ª Maria João Lopo de Carvalho?
Ora bem, mesmo não havendo IRC a pagar, a sua empresa terá que pagar a Segurança Social correspondente ao seu salário. Esta é:
a) Caso de 30 professores:
270,000 = (salário líquido) + (percentagem de desconto da empresa para a segurança social) <=>
270,000 = X + 22 % <=> X = 270,000 - 22% = 270,000 * (1 - 0.22 ) = 210,600 euros por ano
b) Caso de 40 professores:
X = 360,000 * (1 - 0.22) = 280,800 euros por ano
Portanto, isto dá um valor anual entre os 210,600 e os 280,800 euros
líquidos. Ou em 14 meses (incluíndo subsídios de férias e de Natal): entre 15, 042.86 e 20,057.14 euros líquidos mensais.
Conclusão n.º 5: para 30 a 40 professores à sua responsabilidade, a sr.ª Maria João Lopo de Carvalho consegue um salário mensal LÍQUIDO (
de 15,042.86 a 20,057.14 euros (mais os subsídios de férias e de Natal neste mesmo valor).Já frisei o sufíciente que isto são valores por baixo? E que estes últimos valores são valores líquidos? É agora mais claro porque é que este negócio é mais apetitoso do que os cargos políticos a que a senhora Maria João Lopo de Carvalho poderia aspirar?
Compreendem agora, caros contribuintes fiscais, porque é que a "escritora" Maria João Lopo de Carvalho, assessora da vereadora da Educação e Acção Social da Câmara de Lisboa, principal interlocutora das escolas de 31 agrupamentos escolares de Lisboa, apresentou as suas propostas imediatamente no dia seguinte à publicação do despacho do M.E.? Escolas estas que dependem directamente, a nível de instalações e de outros apoios, do gabinete em que esta assessora trabalha.
Já vos é claro porque é a sócia gerente de uma empresa fechada há cerca de uma década recusou ser candidata do PSD à Câmara de Vila Franca de Xira?
Percebem agora como é fácil a demagogia, falando de rigor e contenção para depois optar por uma solução mais dispendiosa do que contratar professores do ensino básico?
Este sim, é um verdadeiro privilégio, o de se ter acesso a informação que o resto do mercado não tem, conseguindo ter uma proposta feita no dia seguinte ao da publicação de um diploma. O privilégio de se estar numa posição que permita exercer pressão para que uma proposta seja aceite em detrimento de outras. Mas não é este género de privilégios que o Primeiro-Ministro tão obsessivamente quer extinguir. Este é feudo da classe política!
São estes os números do dever cívico de todas as senhoras Maria João Lopo de Carvalho que por este país fora hão-de ter feito negócios semelhantes.
Se me enganei em alguma conta, e estes valores são exagerados, agradeço que me corrijam. Fár-me-á bem à saúde mental saber que afinal o descaramento tem um custo mais baixo.