a política na vertente de cartaz de campanha

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Finalmente, a invasão amarela

No Ocidente dos finais do século XIX temia-se a grande invasão amarela e por isso largas incursões bélicas foram lançadas contra os impérios do Oriente. Ironicamente, a situação era a oposta: o Ocidente dominava claramente o Oriente!

Mas dando fundamento à máxima "paciência de chinês", eis que aí está a verdadeira invasão amarela. Primeiro timidamente com as lojas dos trezentos, depois com consistência começando com os têxteis e abrangendo actualmente quase toda a capacidade produtiva e, finalmente, em larga escala e com contornos deveras preocupantes, com a OPA chinesa sobre o Benfica.

E o culpado disto tudo, quem é, quem é? O Manuel Pinho, claro. Ele é que foi lá para a China dizer-lhes para investirem cá. Agora mordam a língua e provem o vosso próprio veneno. O Manelito afinal não estava a ser pacóvio; não nos tinha era contado tudo.

Sobre a OPA propriamente dita, a concretizar-se ainda ouviremos «SLC, SLC, SLC», como escreveu um leitor do Diário Económico. E, já agora, ora vamos lá ver onde anda esse espírito patriótico do comendador Berardo, tão prontamente manifestado por ocasião da OPA da PT.

Para reflectir: são os detentores do capital (pessoas, empresas, ...) os modernos estados?


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Manuel Pinho é um mentiroso



Ora aí está, mais um. Devem ser como as nódoas, caem todas no mesmo pano.

A cronologia:
Segunda-feira, 21-05-2007: sabe-se que a Delphi, multinacional de componentes automóveis, vai despedir em Portugal metade dos seus trabalhadores (500 deles).

Segunda-feira, 21-05-2007: Manuel Pinho, armado em defensor da empresa e fazendo o trabalho dela, vem dizer que em contrapartida a Delphi criará postos de trabalho em Castelo Branco.

Terça-feira, 22-05-2007: Sabe-se que afinal esses tais empregos já existem, afinal nenhum novo emprego será criado.

Quarta-feira, 23-05-2007: Hoje de manhã na Antena 1, ouvi Manuel Pinho dizer que não tinha dito que novos empregos serão criados. Como o jornalista não gostou de ficar com a fama de mentiroso, passou as duas declarações do ministro. Ficou claro que Manuel Pinho além de patético é também mentiroso.

A realidade
Na verdade, a Delphi quer desaparecer na totalidade da Europa, passando-se para os países onde a mão de obra constitui um custo residual. Assim produzirá mais barato, vendendo ao mesmo preço. Tudo graças a um grupo de inteligentes terem aberto as fronteiras na totalidade a países que pouco lhes importa que sejam crianças a trabalhar em idade escolar, que os adultos trabalhem 20 horas por dia, que não haja segurança social, etc, etc. Para calar as populações, a Comissão Europeia, encabeçada pelo Cherne Durão, prometeu subsídios. Não há uma parábola sobre isto, algo como não lhe dês dinheiro, ensina-o a pescar?

As frases e os links
Ouça o que o ministro disse
http://www.rr.pt/PopUpMedia.Aspx?&FileTypeId=1&FileId=322693&contentid=207830

http://www.rr.pt/informacaoDetalhe.aspx?AreaId=23&SubAreaId=54&ContentId=207850
Empresa deverá despedir até 20 mil trabalhadores

A multinacional deverá despedir entre 15 mil a 20 mil trabalhadores em toda a Europa, nos próximos dois a três anos.

Estes números foram avançados hoje em Sevilha pelo presidente da Federação Europeia dos Sindicatos da Indústria Metalúrgica durante o Congresso da Confederação Europeia dos Sindicatos.

“A longo prazo a Delphi está a planear sair completamente da Europa ocidental”, disse, acrescentando que esta empresa “é apenas uma das empresas fornecedoras que estão a reduzir. Temos visto outras grandes empresas a fazer o mesmo”.

O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, também já se pronunciou sobre os despedimentos da Delphi, disponibilizando o fundo social europeu para ajudar os trabalhadores da empresa, agora ameaçados com despedimento.
http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/nacional/empresas/pt/desarrollo/996668.html
O ministro da Economia, Manuel Pinho, revelou hoje em Bruxelas que a empresa Delphi vai criar postos de trabalho em Castelo Branco, minimizando assim o impacto do despedimento de 500 trabalhadores na Guarda.
Textos anteriores sobre a globalização
http://fliscorno.blogspot.com/search/label/globaliza%C3%A7%C3%A3o

A lição

Quando comprar produtos com etiqueta Made in PRC, Made in China, Made in Bangladesh, Made in what-ever-country-where-hiring-a-person-is-cheaper-than-a-bottle-of-cheap-wine, lembre-se que estará a contribuir, mesmo que indirectamente, para o nosso desemprego. A dificuldade consiste, já, em encontrar alternativas a estes produtos. Something to think about...


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Globalização e flexigurança

Como é que uma empresa se torna competitiva? Não havendo fórmulas mágicas, as possíveis hipóteses passam por um ou mais destes caminhos:
  1. a empresa produz o mesmo que as outras a menor preço;
  2. a empresa produz o que nenhuma outra produz;
  3. a empresa vende onde as outras não conseguem ou podem vender;
  4. a empresa paga menos impostos do que a concorrência.
E como é que se chega a estes resultados? Vejamos cada um destes itens.

1. A empresa produz o mesmo que as outras a menor preço:
Existe uma enormidade de factores que conduzem a este resultado. Alguns são:
Vantagem competitiva
Forma de a atingirExemplo
a empresa consegue comprar matérias primas a menor preçocapacidade negocial da empresa

a empresa dispõe de técnicas de produção mais eficazes do que a concorrência
investigação; compra de tecnologia; formação dos colaboradores (chefias incluídas)
indústria dos moldes
a empresa tem menores custos salariais
salários mais baixos do que a concorrência;
têxteis
a empresa tem infraestruturas públicas à sua disposiçãoplaneamento e construção de infraestruturas públicas
redes viárias, ferroviárias, portuárias e aéreas

2. A empresa produz o que nenhuma outra produz:
Vantagem competitiva
Forma de a atingirExemplo
exclusividade na produção de determinado bem ou serviço
contractos de exclusividade com a entidade compradora, como por exemplo com o Estado
produção de material militar
produto patenteado
investigação
produtos farmacêuticos
tecnologia não disponível às outras empresas
investigaçãoaviação e aeroespacial

3. A empresa vende onde as outras não conseguem ou podem vender:
Vantagem competitiva
Forma de a atingir
Produtos adaptados ao mercado alvo
Estudo do mercado alvo
Interdição à importação de bens produzidos em condições precárias
Identificação das empresas sem ética social e/ou ambiental

4. A empresa paga menos impostos do que a concorrência:
Vantagem competitiva
Forma de a atingirExemplo
Energia mais barata
Menos impostos sobre os combustíveis
Menor ISP; menos impostos sobre a electricidade
Menor carga fiscal
Maior eficácia do Estado
O Estado mostra-se capaz de funcionar com menos dinheiro

Não tenho formação em economia mas isso não me impede de ter uma visão empírica sobre o assunto, como acabei de fazer. A leitura que faço é que as questões laborais relacionadas com o empregado/trabalhador/colaborador, conforme o jargão que se queira usar, representam apenas uma pequena parte no puzzle da competitividade. Aliás isso nem surpreende, pois algumas das mais competitivas empresas são também as que pagam melhor. Por isso, não tenho problemas de consciência em afirmar que Victor Constâncio, ao defender a necessidade de flexibilizar a relação laboral para aumentar a competitividade, é desonesto, mal intencionado e não está mais do que a fazer um favor ao seu querido PS, fornecendo "argumentos" para futuras políticas.

E o mesmo se aplica a António Perez Metello, a quem hoje ouvi na Antena 1 papaguear a mesma linha de argumentação do sr. Constâncio. E diz-se ele economista. Só se eventualmente estiver a pensar nas suas economias com esta bajulação socrática.

Primeiro veio Manuel Pinho (apoiado pelo PM!) pedir aos chineses para investir em Portugal, pois temos nos salários uma vantagem competitiva. Agora é o sr. Constâncio a pretender que as nossas leis laborais têm que ser flexibilizadas. Parece-me, portanto, que estamos novamente na rota do sonho oriental. Mas desta vez o objectivo não é cruzar mares nunca antes navegados mas sim transformar Portugal naquilo que são esses países asiáticos. Uma vez que o sr. Constâncio apenas foca a flexibilização laboral como forma de tornar a economia mais competitiva, vejamos com o vídeo seguinte até onde teríamos que ir nessa flexibilização laboral para conseguirmos competir com estas economias.


Bangladesh Sweatshops


Sumário do vídeo:
Bangladesh Sweatshops
Horário de trabalho: 14 a 20 horas diárias
7 dias por semana, 2 dias livres por mês
80% dos trabalhadores são mulheres de 16 a 25 anos


Bangladesh Sweatshops
Empregados sujeitos a objectivos apertados:
coser um botão: 8 segundos
coser um bolso dum casaco: 1 minuto


Bangladesh Sweatshops
Salário duma costureira: US $0.11 a US $0.17 (US $5.28 por semana)
Salário duma ajudante: menos de US $0.8 por hora (US $3.80 por semana)


Bangladesh Sweatshops
É preciso pedir autorização para ir ao WC (duas vezes por dia, no máximo)
Não há baixa por doença, segurança social ou reforma
As tentativas de formar sindicatos levam, geralmente, à prisão
Aos 35 anos é-se despedido, sendo-se substituído por jovens raparigas
Não havendo local para comer, usa-se o telhado


Sr. Constâncio, v.exa está errado! É impossível competir com estas formas de produzir. A única forma de mantermos as empresas europeias competitivas é terminando com a treta desse comércio livre (livre de deveres) substituindo-o pelo comércio justo. Depois deste passo, quando todas as empresas estão sujeitas aos mesmos deveres, então sim, podemos pensar na forma das empresas serem competitivas.


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Globalização ou pirataria económica?


Esta é uma etiqueta dum produto comprado em Portugal numa loja dum grupo francês, importado por uma empresa espanhola, produzido na China.

Custou 36 € e se, depois de retirado o IVA, se se cortar sempre em metade o valor do produto ao longo do respectivo ciclo de vida, desde o momento da venda até chegar à mão de obra que o produziu, obtêm-se valores desta ordem de grandeza:

Valor inicial
Parcela a abater no valor do produto
Valor a transportar% sobre o preço sem IVA
36
21% de IVA = 5.46
30.54
--
30.54
margem da loja portuguesa = 15.27
15.27
50.00%
15.27
margem do importador espanhol = 7.64
7.63
25.02%
7.63
margem do intermediário chinês = 3.82
3.81
12.51%
3.81
margem do produtor = 1.91
1.9
6.25%
1.9
matérias primas = 0.95
0.95
3.11%
0.95mão de obra=0.95
0.00
3.11%
Valores em Euros. Estes valores, apesar da precisão numérica apresentada, são estimativas!

Ou seja, este produto de 36 € teve, eventualmente, um custo de produção de 3.81 €, custos de distribuição acumulados de 11.46 € (15.27-3.81) e um custo de venda de 15.27 €. Contribuiu ainda com 5.46 € em IVA para o Estado português e em 0.95 € para o salário de algum Chinês de alguma fábrica de têxteis chinesa.

Dito de outra forma, o preço final do produto, sem IVA, teve origem em:
  • venda: 50%
  • distribuição: 37.52 %
  • produção: 9.36%
  • mão de obra: 3.11%
Claro que estes valores são estimados, pelo que é legítimo perguntar se fazem sentido. Segundo um estudo publicado por Jenny W.L. Chan (MPhil in Sociology, University of Hong Kong) no site da SweatShop Watch, o preço duma t-shirt de US $100 reparte-se desta forma (clicar na imagem ao lado, copiada deste ppt: link):

T-shirt com preço de venda de $100
  • marca e retalhista: $75 (inclui design, implantação da marca, marketing, outras despesas e lucro)
  • matéria prima: $10
  • custos da operação fabril: $5 (inclui $1.75 para mão de obra)
  • quotas/impostos: $5
  • lucros do importador: $4.5
  • transportes: $0.5
Os números são, obviamente, diferentes mas as ordens de grandeza são aproximadas e permitem-nos concluir que a grande fatia no custo do produto comprado (cerca de 80%) vem do canal de venda.

A globalização não trouxe preços no consumidor significativamente mais baixos e, por comparação com o preço final do produto, pouco aumenta a riqueza do país produtor. Por outro lado, no país onde o produto é vendido, a industria local fecha por incapacidade de competir (não esquecer que a grande fatia dos lucros ficam no canal de venda, logo o preço de venda no produtor é baixo).

Se os consumidores e os produtores não são os ganhadores deste modelo económico, a quem interessa portanto a globalização? Unicamente aos intermediários. Portanto, quando ver, ouvir ou ler alguma notícia sobre a inevitabilidade da globalização, procure entender a que grupo económico essa pessoa está ligada ou a qual tem afinidade. A minha aposta é que, de alguma forma, ganha dinheiro com a distribuição.

A globalização é um modelo em que a riqueza de dois países, o consumidor e o produtor, é canalizada para o grupo económico que faz os produtos dum chegar ao outro, à conta duma pequena redução no preço de venda ao público e dum pequeno aumento de riqueza da mão de obra de alguns países.

Mas no longo termo a situação é insustentável, é preciso disso ter-se consciência. Para onde caminhamos, portanto? E que alternativas se vislumbram?

Notas:
  1. Este texto olhou a questão da globalização sob a perspectiva dos têxteis mas outras áreas podiam ser igualmente abordadas com semelhantes conclusões.

  2. Sweatshops (tradução literal: oficinas de suor) - termo pejorativo frequentemente usado para descrever unidades produtivas que pressionem ou forcem os empregados a trabalhar durante períodos inaceitavelmente longos, como seria o caso de trabalhos penais forçados ou de escravatura.

  3. Em Portugal existe uma lei que diz que todos os produtos cá vendidos devem obrigatoriamente ser etiquetados e conter instruções em português. Como com muitas outras das nossas leis, esta existe para o papel, pois o seu incumprimento é prática habitual e a fiscalização inexistente.
Leituras adicionais:


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Darwin's nightmare

darwins nightmare
darwins nightmare
www.darwinsnightmare.com

A RTP2 passou neste sábado ao fim do dia o documentário "O pesadelo de Darwin", um filme de 2004. Todas as pessoas que no supermercado compram perca deviam tê-lo visto.

É relatada a história do comércio de perca à volta do Lago Victoria, na Tanzânia. Em 1960 a perca foi introduzida no lago naquilo a que se chamou ser uma experiência. Sendo um peixe carnívoro extremamente voraz, praticamente todas as espécies autóctones acabaram extintas. Multiplicou-se de forma tão rápida que actualmente este peixe é exportado para todo o mundo, seja em filetes, seja fresco.

O equilibrado ecossistema existia à volta do lago foi destruído e actualmente as populações vivem da exploração comercial deste peixe. Aviões russos, Antonov, trazem diariamente toneladas de peixe para a Europa. Como voltar da Europa para a Tanzânia sem levar carga custa dinheiro e havendo conflitos intermináveis em África, então os Antonov levam para Angola as armas vendidas pelos Europeus. Depois partem para a África do Sul para carregar uvas. Depois vão à Tanzânia e carregam o peixe para, finalmente completar o ciclo trazendo a carga para a Europa.

Inevitavelmente, como em todos os locais com problemas sociais, a prostituição também cresceu à volta do lago. Com ela veio o HIV e o contágio àqueles que antes eram agricultores em aldeias próximas do lago mas que agora as deixam sazonalmente para fazerem a época da pesca. As aldeias perdem os seus homens e a pobreza das respectivas famílias aumenta ainda mais. As crianças adormecem profundamente fumando a cola que retiram das paletes velhas onde o peixe é transportado e os abusos sexuais acontecem.

A degradação no seu apogeu. Em 1999 a União Europeia abriu as portas ao comércio da perca na Europa, exponenciando o existente problema. Mas será que ainda poderia piorar? Dependendo da opinião, sim. Em especial depois de ouvirmos um Comissário desta Europa brindar-nos com uma pérola da hipocrisia ao dizer que o Lago Vitoria é uma prova do sucesso que é a globalização.

Quando vir a perca à venda no supermercado, lembre-se que ao não a comprar está activamente a não pactuar com esta situação.