a política na vertente de cartaz de campanha

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Auto-elogio, ou gabarolice como se diz na gíria

A expressão ímpeto reformista tem sido usada com frequência para se referirem ao governo de Sócrates, se bem que agora com menor frequência. No entanto, hoje volto a republicar um texto anterior, o que me leva a observar que a mudança poderá não passar da aparência.
 
Vem isto a propósito de mais um relatório da OCDE sobre a educação, oportunamente usado para propagandear a bondade do caminho de pedras que tem sido o rumo da educação socrática. E no entanto, como registou Paulo Guinote, vamos ver a autoria do documento e lá está o Ministério da Educação, no caso pela mão de Alexandre Ventura, presidente do Conselho Científico para a Avaliação de Professores.
 
Pois é, quem nasceu primeiro? O ovo ou a galinha? É aqui que entra um texto de Outubro de 2007:
Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007
Education at a Glance 2007

Talvez já tenha o leitor pensado, como eu, de forma obtém a OCDE estes dados. Vem ao terreno fazer as suas próprias investigações? Tem sucursais? São-lhe fornecidos por outrem? É, no meu entender, uma questão pertinente, pois da confiança nestes dados resulta a validade das conclusões obtidas.
 
Ora este "Education at a Glance 2007" contém uma secção "Sources", onde que lê que as fontes para este relatório foram, no caso português:
 
    * The Bureau for Information and Evaluation of the Education System,
    * National Statistical Institute,
    * The Financial Management Bureau,
    * Science and Higher Education Observatory.
 

Ou seja, a respectiva proveniência é o Estado português. O que não deixa de ser curioso: a ministra da educação justificou todas as suas polémicas decisões com base nos dados publicados pela OCDE. Mas a OCDE apenas trata, compara e publica informação baseada nos dados fornecidos, no caso português, pela própria ministra. Um verdadeiro caso de pescadinha com rabo na boca e de nos interrogarmos seriamente sobre a ética de fazer política assim.
 
Quanto ao documento que agora tanto entusiasmou Sócrates, de onde vieram os dados? Basta consultar o respectivo anexo 2:
ANEXO 2: FONTES DOCUMENTAIS E INFORMAÇÃO DE ENQUADRAMENTO
A equipa beneficiou do acesso a um conjunto de documentos, incluindo:
  • Galvão, M.E. (Ed.) (2004). Desenvolvimento da Educação em Portugal. Ministério da Educação
    e Secretaria de Estado dos Assuntos Europeus e Relações Internacionais.
  • Ministério da Educação (2007). Educação e Formação em Portugal. Ministério da Educação,
    Portugal.
  • Ministério da Educação (2008). Medidas Políticas Implementadas no Primeiro Ciclo do Ensino
    Obrigatório em Portugal: Relatório Nacional. Ministério da Educação, Portugal.
  • Serrazina, M.L. (2008). Programa de Formação Contínua de Professores de Matemática: recompensas e desafios. Escola Superior de Educação de Lisboa.
  • Foram elaborados relatórios sobre a reorganização da rede escolar do primeiro ciclo em cada
    uma das cinco regiões, lavrados com objectivo da avaliação, e foram produzidos registos por
    alguns grupos de testemunhas entrevistados.
  • As informações e dados produzidos por todos os Serviços Centrais do ME, em particular, pelo
    GEPE e pela IGE, também se revelaram bastante valiosos.
E o leitor não acha este texto que acabo de escrever notavelmente excelente? Olhe que já foi gabado e aplaudido incondicionalmente (por mim).


1 comments :

  1. Joaquim Ferreira disse...
     

    Excelente análise… PARABÉNS… Apenas uma reflexão sobre a situação actual da escola em Portugal e dos Professores. Todos temos a obrigação de desmascarar estes FALSOS MINISTROS (porque não servem o país, servem-se do país!) mas EXCELENTES MINISTROS DA PROPAGANDA, DA MENTIRA, DA FARSA... Vivemos em Democracia? Não. Numa Ditadura...? parece que SIM! Afinal, onde está a comunicação social tradicional? Onde está a senhora dos “Prós e Contras”? Desertou...? Ou não lhe convém agora mostrar ao povo quem mente sobre a educação e... Claro, sobre a competência dos professores. Querem avaliar os professores? Chegamos onde chegamos por mérito demonstrado perante dezenas de professores doutores nas universidades onde se consegue um lugar por mérito e nunca por eleição.... Ao ministério chega-se por eleição (popularidade!) E não por competência...! Ou por nomeação, onde a amizade e o compadrio parecem ser os únicos factores determinantes... Nós os professores temos o direito de dizer "estamos fartos de ser avaliados. Fomos formados para avaliar e a ministra impede-nos com leis de o fazer... Não se pode reter um aluno mais do que 1 vez em cada ciclo... Ainda que seja um zero a tudo... Passará... E terá o canudo das novas oportunidades (ou, quiçá, um diploma de engenheiro!). Tenhamos a coragem de assumir que, quando comparados com estes inúteis ministros, somos todos excelentes!

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