a política na vertente de cartaz de campanha

Buzz this

As aulas de substituição - notícia na RTP - Parte I

No Telejornal de hoje fomos brindados com umas peças jornalísticas que parecem mesmo, mesminho terem saído do forno de encomendas do ministério.

As notícias completas estão no site da RTP [link minuto 14:30'] mas vale a a pena comentar algumas passagens.

A primeira das reportagens veio em consequência do Ministério da Educação ter sido condenado a pagar as aulas de substituição de um professor. Dada a notícia, duma forma breve e informativa, começou outra reportagem, esta em forma de resumo do são as aulas de substituição. A reportagem está montada sobre uma professora que está a fazer uma substituição e sobre os problemas que ela tem que enfrentar. Mais um pai e, finalmente, chega Valter de Lemos, no seu melhor, comentando o assunto:



Transcrição:
"É bom que nesse aspecto os pais e os próprios alunos sejam exigentes em relação ao serviço que é prestado. Mas tamém (sic) devemos dizer em abono da verdade que as escolas e os professores têm feito um esforço enorme de melhorar esse tipo de resposta, sendo certo que sendo uma coisa nova, seria de esperar que não funcionasse instantaneamente bem em todo o lado e em todas as situações."

É sempre edificante vermos um responsável pela Educação brindar-nos com com pérolas da linguagem coloquial como é este tamém.

À parte desta tramelguísse linguística, dois aspectos são notáveis:
1. "as escolas e os professores têm feito um esforço enorme", o que nos leva a questionar se esta medida foi devidamente preparada;

2. Logo de seguida Valter de Lemos dá-nos a resposta à questão anterior: "sendo certo que sendo uma coisa nova, seria de esperar que não funcionasse instantaneamente bem em todo o lado e em todas as situações".

É de notar que
- As aulas de substituição não são uma coisa nova!
- As as coisas, mesmo sendo novas, funcionem bem logo à partida. A isso chama-se preparação e fazer as coisas com pés e cabeça.

Esclarecedor do rigor com que é feito o planeamento no M.E.

Mas a notícia estava a decorrer sem grandes sobressaltos até ter sido dada a estocada final. Aquela nuance que marca toda a peça. A característica marca d'água da encomendada. Em jeito de conclusão, a reportagem termina com a jornalista afirmando:

Transcrição:
"A obrigatoriedade das aulas de substituição parece revelar já uma virtude: a taxa de absentismo dos professores revela uma tendência de descida na ordem dos 40%".

A jornalista começa por afirmar "parece", como se estivesse a repetir um boato. Mas parece ou é mesmo? Depois, é apresentado uma "tendência de descida", nem sequer se está a falar duma descida efectiva. Além disso, não é citada a origem da informação, o período de comparação, nem que faltas aqui estão contabilizadas.

Duma forma descaradamente encapotada foi dito:
- os professores faltam muito;
- eles queixam-se mas afinal estão a baldar-se menos;
- nós (o M.E.) estamos a pô-los na linha.

Um vergonhoso exemplo de jornalismo, demonstrativo de como se formatam as opiniões públicas.


Mas como não há duas sem três, houve ainda uma terceira reportagem versando a educação neste mesmo dia. Esta foi sobre a coqueluche do ministério: o enriquecimento curricular. Não sendo necessária à notícia inicial das aulas de substituição e não sendo óbvio o pretexto de se abordar este assunto neste momento, arrisco afirmar que se pretendeu convencer o espectador de que além de pôr os professores na linha, o M.E. tem obra feita. Mas isso vai ser conversa para um próximo post.


PS: está bem visto que regressei da Europa.


4 comments :

  1. Anónimo disse...
     

    É a Ministra quer mostrar que tem tudo controlado mas está é a meter os pés pelas mãos.
    Abraço!

  2. Anónimo disse...
     

    Esta equipa do ME está a ir longe de mais! Ao fim de 36 anos de serviço nunca pensei assistir a este assalto. Puro banditismo: vejam-se os critérios para o concurso de "professor titular".
    De repente caem-nos em cima com regras arbitrárias e agridem-nos com armas apontadas à cabeça. Tenho vergonha deste país, desta desgovernagem, desta gente que assaltou o Estado com uma bandeira na mão onde pintaram a palavra "socialismo" e onde roubam tudo a quase todos para manter a "nomenklatura".
    Fogo nesta gente!

  3. cinderela-dos-pes-grandes disse...
     

    Raposa velha: felicito-o pela lucidez e inteligência das suas análises. É raro alguém fora do sistema de ensino ter uma visão tão clara do que está realmente em jogo, por uma série de razões onde o papel dos media tem bastante peso.
    Gostei muito e ... I'll be back! ;)

  4. Rosalina disse...
     

    é, infelizmente, tenho a certeza de que o parece jornalístico disfarça cada vez mais a manipulação de informação. e quantas outras a ausência de profissionalismo.

Enviar um comentário