a política na vertente de cartaz de campanha

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Tanta demagogia...

Maria de Lurdes Rodrigues dixit:

"Mas essas aulas [de substituição] têm de ser de qualidade, permitindo aos alunos tirar todo o partido delas e assim melhorarem os seus resultados escolares" [...]

Admitiu ainda que, em alguns casos, as aulas de substituição são encaradas como "meros espaços para jogos ou entretenimento".

Em todas as profissões há pessoas que faltam, seja porque se atrasaram, seja porque tiveram um assunto pessoal a tratar, seja porque adoeceram, seja lá pelo que for. Pelo que tenho lido, os professores se faltam têm que justificar a sua falta, como em qualquer outra profissão. Questão: Têm eles mais possibilidades de justificar as suas faltas do que a restante função pública? Sinceramente, não sei. Mas o meu palpite é que não. Até porque se fosse esse o caso, já o assunto teria sido apontado pelo ME.

Então porquê esta insistência em que os professores faltam demasiado? De uma vez por todas, gostava de ver ver uma estatística que agrupasse as faltas dos professores por categorias. Para saber quantos faltam por doença, quantos faltam por licença de parto, quantos faltam à conta das férias, etc. Isso permitiria de uma vez por todas esclarecer se os professores são ou não baldas.

Independentemente disso, considero que as aulas de substituição, na forma como foram criadas, são uma boa bodega. Então, professores que não são da cadeira vão dar uma aula de substituição?! É mesmo para inglês ver. E mesmo que sejam da mesma área e que o professor que faltou tenha deixado uma aula preparada, aceitar as aulas de substituição é admitir que em vez dum professor bem que lá podia estar uma máquina - uma televisão por exemplo, que seria a mesma coisa! Ora venha lá a tele-escola de volta!!! (lembram-se?)

Onde é que está a relação pedagógica, tão amada dos nossos pensadores do Ministério da Educação?


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A síndrome do taxista

Notícia hoje no Público :
"A tutela prepara-se ainda para aumentar de cinco para oito horas diárias o tempo de aulas que cada professor pode dar [...]"
8 horas diárias? Ou o artigo está errado ou a ministra passou-se. Isto daria 40 horas semanais, mais 5 do que a função pública.

Não é indicado quem forneceu tal informação. Foi o ME? Foi comentário de fonte sindical? O meu palpite é que poderá constar das intenções ministeriais mas terá sido resultado de conversa sindical. Isso explicaria a falta de nexo da ideia bem como se enquadraria numa estratégia de provocar exaltação na classe docente. O que parece estar a ser conseguido, avaliando os comentários dos leitores dessa notícia do Público.

Seja como for, tenho reparado que este tipo de notícia bombástica, passível de enorme reacção de descontentamento, tem sido publicada com regularidade aos sábados. Haverá alguma justificação que não inclua a desonestidade política? Seja a respectiva fonte o ME ou um sindicato, uma coisa é certa, a escolha do dia de publicação não é inocente.

No entanto não me surpreenderia que esta ideia das 8 horas diárias se viesse a confirmar como mais do que um boato. Estaria sem dúvida enquadrada na linha de actuação recente do ME. Então e tempo para preparar aulas e para fazer e corrigir testes? E tempo para as inúmeras reuniões que a burocracia do ME estabeleceu?

Entre as reuniões a que o ME obriga e as que decorrem da necessidade de concretizar as suas políticas, existem estas:
- reuniões de conselho turma (1 por período, em média);
- reuniões de avaliação (1 no fim de cada período);
- reuniões de departamento (1x por mês);
- reuniões de directores de turma (2x por período);
- reuniões de conselho de turma de cursos profissionais (1x por semana para os professores destas turmas);
- reuniões de estudo acompanhado e área de projecto (1x por período para os professores envolvidos);
- reuniões de grupos de professores que leccionam o mesmo nível lectivo (1x por período, pelo menos).

Tenho notado que a maior parte dos comentários têm caracter de discordância relativamente a esta notícia. Esporadicamente surgem no entanto alguns comentários a favor desta medida, bem como das outras que o ME tem colocado na ordem do dia. Estes podem ser classificados como pertencentes à "Síndrome do Taxista", no sentido de eu estou certo os outros estão sempre errados; ou a culpa é sempre dos outros; ou os outros são privilegiados e eu sou um desgraçado que me farto de trabalhar.

Um exemplo. Há lá um (ou uma!) tal que assinou por ROLF, de Setúbal, que escreveu:
" Está errado...o excesso de férias.
Por ROLF - Setúbal
E tem toda a razão. Por uma vez a equidade exige-se. Todos somos necessários ao País, porque haveremos de ter regalias diferenciadas? Salvo casos muito excepcionais, sempre fui contra estes privilégios das férias dos professores. Se eu trabalho e tenho 22 dias de férias, porque é que há-de haver tantos dias para estes snrs? Somem tudo e vejam os dias de papo para o ar... "
Não sabemos quantas horas por semana trabalha o(a) sr.(a) ROLF de Setúbal. Serão 40 horas semanais? Certamente que não, se for da função pública. Idem se trabalhar na privada. Na sua magnânime ignorância, a pessoa em causa não é capaz de distinguir horas de trabalho com horas lectivas. (Precisará de voltar à escola?)

Deste género de comentários identifica-se com facilidade o padrão da referida síndrome. "Eu farto-me de trabalhar e os outros não fazem nada". Conheço várias pessoas assim e estas, quando as observo com atenção, vejo que não são afinal o modelo que defendem para os outros. Como a generalidade da população, fazem uma pausa para café a meio da manhã e outra a meio da tarde - menos uma hora de trabalho. Lêem e reencaminham uns tantos mails não relacionados com trabalho e não prescidem duma leitura dos seus jornais online e dos seus blogs de eleição - menos outra hora de trabalho. Entram às 9 da manhã e saem algures entre as 18 e as 20h e, sem capacidade de autocrítica, afirmam que passam tempo de mais na empresa. O que não deixa de ser verdade, apesar de não corresponder ao sentido original da sua lamentação.

Estas pessoas constituem uma massa crítica manipulada pela propaganda política. Exteriorizam a sua frustração perante as expectativas não conseguidas culpando o "outro", como por exemplo uma classe profissional, pela sua incapacidade organizativa. Onde há frustração há terreno para a demagogia e a classe política tem, ao longo das últimas décadas, feito uso desta estratégia baixo-ventre. Quem tiver memória certamente se recordará que os nossos diversos governos já colocaram os médicos contra a população, os juizes contra a população, os polícias contra a população, os enfermeiros contra a população, os professores contra a população, os militares contra a população, os profissionais liberais contra a população, os funcionários públicos contra a população, etc, etc.

É curioso notar que os atingidos por esta estratégia queixam-se de falta de solidariedade por parte da população mas depois de cessado o fogo sob a sua classe profissional passam a fazer parte da população que se insurge contra a classe profissional a ser atacada de seguida.

Estas são afirmações algo generalistas e, potencialmente injustas. Mas há que reconhecer um padrão na forma de governação e que consiste, como referido, em apresentar um conjunto de características duma profissão, apresentá-las como privilégios e incentivar a indignação. O que resulta em cheio numa população que pouco lê, não procura informar-se e contenta-se com a opinião construída em vez de formular a sua própria opinião.

Disto isto, fosse eu professor, faria duas coisas:
- Em primeiro lugar procurava encontrar forma de fazer com que os sindicatos não me representassem. Acho inacreditável que uma estrutura não eleita possa representar a classe docente. Além disso, fico sempre com a nítida sensação de que a sua actuação tem mais preocupação com os seus interesses corporativos do que com as questões educativas.

- Em segundo lugar, faria única e exclusivamente o horário de trabalho. Se o ME pretendesse que este coincidisse com o período de permanência na escola, tudo bem, aí passaria as minhas 35 horas semanais, tal como a restante função pública. Se não fosse suficiente para corrigir fazer e testes, não os faria. Se não fosse suficiente para a realização dos exames, paciência.

Agora seguramente que não andava a levar cacetada em cima e lastimando-me mas ainda assim a esforçar-me para que a qualidade do ensino não baixasse. Quando finalmente desse bronca, haveria que perguntar aos nossos políticos se as suas orientações fizeram sentido.


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TGV entrará em Lisboa pela margem direita do Tejo

O título deste post deveria começar por "O comboio regional europeu mas que custa tanto como o TGV europeu entrará em... etc".

Justificar-se-á gastar tanto dinheiro para fazer um pouco mais rápida a viagem Lisboa-Porto? Convêm recordar que TGV significa "Train de grand vitesse", comboio de grande velocidade. Ora grande velocidade é coisa que não haverá, isso já foi dito.

E com as paragens anunciadas, em que difere da recém melhorada linha do Norte com os seus Alfa Pendulares? Das duas três, ou o investimento nos pendulares não fez ponta de sentido ou é este do TGV que é um disparate.

Em ambos os casos é o nosso dinheiro que é estoirado, para pagar às empresas de obras públicas. Que como se sabe, são grandes financiadoras dos partidos políticos. Haverá aqui alguma relação?

Uma coisa é certa, com ou sem derrapagens orçamentais, mas obviamente com estas, as empresas de obras públicas têm óptimas perpesctivas pela frente. Nova ponte no Tejo (?), TGV, Ota...

O que eu queria unicamente é que a justiça funcionasse e em tempo útil. O resto do desenvolvimento do país viria por acréscimo. Mas esta abordagem não financia campanhas políticas, pois não?


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Portugal vale a pena

Circula por aí, e nas Fugas Lusas também, um texto do Director adjunto do Jornal Expresso, Nicolau Santos, publicado na Revista Exportar.

De alguma forma, este texto patriótico faz-me lembrar as omnipresentes, mas bem idas, glórias dos descobrimentos.

No outro dia, no "Contraditório" da Antena 1, comentaram que é muito mais fácil criticar (deviam com isso querer dizer apontar o lado negativo) do que elogiar. É verdade e eu, olhando para os meus textos, admito que constituem desabafos de insatisfação. Desde então que estou, sinceramente, a fazer um esforço para encontrar o lado positivo da actual governação (semelhante exercício seria igualmente válido para qualquer um dos anteriores governos). Mas sendo uma pessoa limitada como o sou, deparo-me com muitas dificuldades. E uma das maiores de todas elas resulta desta obstinação de se pretender levar a cabo medidas sem admitir o verdadeiro objectivo. Em vez disso, apregoa-se a medida como uma melhoria para os envolvidos quando salta à vista ser conversa fiada.

Para não me cingir a generalidades, aqui vai um exemplo concreto. As maternidades foram fechadas para que se prestasse um melhor serviço aos utentes, se acreditarmos na propaganda oficial. Mas todos vemos que a razão do fecho reside nas questões financeiras associadas. Na minha ingenuidade, creio que seria preferível assumir as verdadeiras motivações em vez de se tentar fazer da população um amontoado de tolos.

O texto de Nicolau Santos tem, quanto a mim, a beleza da poesia, especialmente na sua capacidade de construção duma realidade muito própria, composta por imagens idílicas do ser amado. Mas ignora esse país em que ganham eleições pessoas de reputação duvidosa; em que ao fim 12 anos de tribunal, o processo que envolve uma central sindical volta à estaca zero; em que as regras dos exames de acesso à universidade se alteram durante o decorrer dos mesmos; em que privatizações transformam monopólios estatais em monopólios privados; em que a construção selvagem destruiu qualquer possibilidade de termos um país geograficamente estruturado, em particular pela criação do caos urbanístico que é o nosso litoral; ...

Estarei a sofrer dum ataque de pessimismo? Ou a crua realidade ensombra-me eventuais réstias de sucessos? Não sei, mas procuro, como disse, sinais positivos.


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Taxas





Mais palavras para quê?...


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Ainda a electricidade

O preço da electricidade vai aumentar seis por cento no próximo ano, anunciou o ministro da Economia.

Então "apenas" aumenta quase 3 vezes o valor da inflação prevista para 2007... Foi por isso que foi apresentado o primeiro valor, para que este parecesse baixo?!

Face ao preço do pretróleo, não sei se este é um valor justo. Mas sentir-me-ia mais confiante se estivessemos num mercado concorrencial.


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O mais disfarçado dos aumentos de impostos

Esta tentativa de aumentos ilustra bem porque é que há interesse em
comprar a participação estatal em empresas como a EDP. Afinal, se o
Estado arrecada milhões com uma venda, o comprador tem que recuperar o
investimento de alguma forma.

Uma vez que as privatizações quase nunca trouxeram mais concorrência
aos sectores envolvidos, esta forma do Estado encontrar receitas
adicionais é mais o mais disfarçado dos aumentos de impostos. Empresas
públicas em regime monopolista é manifestamente mau. Mas ainda pior é
uma privatização sem que se crie concorrência, pois o resultado é este
que agora vemos: aumento de preços para recuperar o capital investido.

Ninguém dá nada a ninguém, ou acreditam que os accionistas que
encheram os cofres do Estado o fizeram desinteressadamente? Todos nós
sabemos que as empresas vendidas não geravam lucros, mas mesmo assim
foram compradas...

Falam em défice tarifário. Como se nós consumidores fôssemos
responsáveis pela má gestão de empresas agora privadas. O que acontece
é que o Estado tem que facilitar a vida a estas novas empresas
privadas, deixando-as vender o mesmo de sempre mas a preços superiores
para que recuperem o investimento.

As privatizações foram como um empréstimo bancário, em que uma parte
do Estado usufruiu do capital adicional e em que todos vamos pagar os
juros.

A propósito, alguém consegue enumerar onde foram gastas as fortunas
que o Estado fez em privatizações neste últimos 10 anos? Para diminuir
o défice não foi, isso já nós percebemos! Para diminuir impostos
também não.



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Como fazer aumentar a electricidade quase 4x a cima da inflação e ainda parecer que se está a fazer grande coisa

1. Prometer a alguém um novo e melhor lugar (especulação, mas linha com o modus operandi) em troca de declarações vergonhosas e que incluam aumentos 7.5x a cima da inflação.

2. Colocar o ministro da tutela em acção, anunciando que esses aumentos vão ser metade do anunciado, apesar de ainda corresponderem a cerca de 3.8x o valor esperado para inflação de 2007.

A mais alguém mete nojo estes políticos?

Uma nota adicional: afinal, a EDP deu lucro ou não? Aparentemente deu, tendo em conta os dividendos anunciados nos anos anteriores. Mas parece que não chega... Ou será que não houve lucros, apesar da distribuição de dividendos, e agora há um buraco a tapar?

Dados: - inflação prevista para 2007: 2.1%; - valores anunciados para o aumento da electricidade pela entidade reguladora: 15.7% - valor corrigido pelo ministro da tutela: no máximo 8%


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A "função pública do tacho"

Podemos enumerar dois tipos de função pública. Por um lado temos aquela que nos presta serviços, como os professores, médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar, quadros das finanças, polícia, bombeiros, juízes, advogados, pessoal dos tribunais, etc, etc.

Por outro, temos a função pública dos gabinetes, do governo, dos consultores, dos adidos de imprensa, dos secretários, das nomeações, das empresas municipais, dos deputados e dos seus gabinetes, dos governos civis e regionais, das delegações regionais, dos institutos, das fundações, etc, etc. Ou seja, aquela função pública que não nos presta serviço algum directamente, encarregue de gerir o bem comum e que, com muita frequência, leva o rótulo de tacho.

Sobre este último género de função pública, é necessário saber duas coisas:
1. Quantos são estes funcionários públicos e a que percentagem correspondem no total da função pública;
2. Que percentagem do PIB se gasta nesta função pública, tanto em pessoal como em despesas de funcionamento dos respectivos serviços.

Com estes dados podemos perceber se a estrutura de pessoal corresponde efectivamente à pirâmide ideal, em que poucos, a gerirem, estão no topo e muitos, a executarem, na base.

Os nossos governantes, sempre que falam em cortes na função pública, referem-se invariavelmente àquela que nos presta serviços. O que se traduz, em consequência, na redução da qualidade do serviço prestado. Por exemplo, menos auxiliares de limpeza nas escolas, menos maternidades, menos pessoal na justiça, menos médicos, menos polícia, etc. Não é notícia frequente algo como "este ano o Ministério X vai funcionar com menos Y pessoas" ou "a Secretaria de Estado Z vai realizar o mesmo trabalho com menos orçamento", mas certamente que também aqui haverá dinheiro que se gasta sem necessidade.

Neste orçamento, o buraco volta a ser tapado aumentando a receita, ou seja fazendo-nos pagar mais e dando-nos menos. Afinal, para que queremos este Estado? Não nos consegue dar atendimento médico em tempo útil, empurrando-nos para a consulta privada, é incapaz de nos garantir uma reforma decente daqui a umas décadas, demora meses ou anos para resolver um processo judicial, apenas consegue aumentar o sucesso escolar com medidas administrativas conducentes à aprovação automática, não consegue evitar que o país arda na totalidade, não assegura um ordenamento do território livre da construção selvagem. Só para citar alguns exemplos.

Se nada disto é conseguido, e se o Estado não se encontra a poupar às escondidas para esbanjar mais tarde em ano de eleições, resta esta pergunta pertinente: onde é gasto o dinheiro dos nossos impostos? Estes não param de aumentar mas cada vez temos menos do Estado. Mais alguém vê aqui um paradoxo? Possivelmente, só se poderá responder a estas questões depois de se saber quanto gasta essa "função pública do tacho".

Numa altura em que tanto se fala de transparência, apresentar estes dados com certeza que colocaria o verbo e a acção em sintonia e permitir-nos-ia compreender/aceitar a necessidade de mais impostos e menos serviços, evitando a habitual desconfiança sobre a boa fé do Estado.


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CARTA ABERTA AO BES

Recebi este texto por email. Assino por baixo.

Esta carta foi direccionada ao BES. Porém, devido à criatividade com que foi redigida, deveria ser direccionada a todas as instituições financeiras. Que acham? Pessoalmente já tive a experiência BES há vários anos a trás. Cancelei a conta com eles devido às taxas descaradamente despropositadas que me tentaram cobrar. Fiquei, no entanto, a perceber onde vão buscar dinheiro para os seus investimentos massivos em publicidade.


CARTA ABERTA AO BES

Exmos Senhores Administradores do BES

Gostaria de saber se os senhores aceitariam pagar uma taxa, uma pequena taxa mensal, pela existência da padaria na esquina da v/. rua, ou pela existência do posto de gasolina ou da farmácia ou da tabacaria, ou de qualquer outro desses serviços indispensáveis ao nosso dia-a-dia.
Funcionaria desta forma: todos os meses os senhores e todos os usuários, pagariam uma pequena taxa para a manutenção dos serviços (padaria, farmácia, mecânico, tabacaria, frutaria, etc.). Uma taxa que não garantiria nenhum direito extraordinário ao utilizador. Serviria apenas para enriquecer os proprietários sob a alegação de que serviria para manter um serviço de alta qualidade ou para amortizar investimentos. Por qualquer produto adquirido (um pão, um remédio, uns litros de combustível, etc.) o usuário pagaria os preços de mercado ou, dependendo do produto, até ligeiramente acima do preço de mercado.
Que tal?
Pois, ontem saí do meu BES com a certeza que os senhores concordariam com tais taxas. Por uma questão de equidade e de honestidade. A minha certeza deriva de um raciocínio simples.
Vamos imaginar a seguinte situação: eu vou à padaria para comprar um pão. O padeiro atende-me muito gentilmente, vende o pão e cobra o serviço de embrulhar ou ensacar o pão, assim como, todo e qualquer outro serviço. Além disso, impõe-me taxas. Uma "taxa de acesso ao pão", outra "taxa por guardar pão quente" e ainda uma "taxa de abertura da padaria". Tudo com muita cordialidade e muito profissionalismo, claro.
Fazendo uma comparação que talvez os padeiros não concordem, foi o que ocorreu comigo no meu Banco.
Financiei um carro. Ou seja, comprei um produto do negócio bancário. Os senhores cobraram-me preços de mercado. Assim como o padeiro cobra-me o preço de mercado pelo pão.
Entretanto, de forma diferente do padeiro, os senhores não se satisfazem cobrando-me apenas pelo produto que adquiri.
Para ter acesso ao produto do v/. negócio, os senhores cobraram-me uma "taxa de abertura de crédito" - equivalente àquela hipotética "taxa de acesso ao pão", que os senhores certamente achariam um absurdo e se negariam a pagar.
Não satisfeitos, para ter acesso ao pão, digo, ao financiamento, fui obrigado a abrir uma conta corrente no v/. Banco. Para que isso fosse possível, os senhores cobraram-me uma "taxa de abertura de conta".
Como só é possível fazer negócios com os senhores depois de abrir uma conta, essa "taxa de abertura de conta" se assemelharia a uma "taxa de abertura da padaria", pois, só é possível fazer negócios com o padeiro, depois de abrir a padaria.
Antigamente, os empréstimos bancários eram popularmente conhecidos como "Papagaios". Para gerir o "papagaio", alguns gerentes sem escrúpulos cobravam "por fora", o que era devido. Fiquei com a impressão que o Banco resolveu antecipar-se aos gerentes sem escrúpulos.
Agora ao contrário de "por fora" temos muitos "por dentro".
Pedi um extracto da minha conta - um único extracto no mês - os senhores cobraram-me uma taxa de 1 EUR.
Olhando o extracto, descobri uma outra taxa de 5 EUR "para a manutenção da conta" - semelhante àquela "taxa pela existência da padaria na esquina da rua".
A surpresa não acabou: descobri outra taxa de 25 EUR a cada trimestre - uma taxa para manter um limite especial que não me dá nenhum direito. Se eu utilizar o limite especial vou pagar os juros mais altos do mundo. Semelhante àquela "taxa por guardar o pão quente".
Mas, os senhores são insaciáveis.
A prestável funcionária que me atendeu, entregou-me um desdobrável onde sou informado que me cobrarão taxas por todo e qualquer movimento que eu fizer.
Cordialmente, retribuindo tanta gentileza, gostaria de alertar que os senhores se devem ter esquecido de cobrar o ar que respirei enquanto estive nas instalações do v/. Banco.
Por favor, esclareçam-me uma dúvida: até agora não sei se comprei um financiamento ou se vendi a alma?
Depois que eu pagar as taxas correspondentes, talvez os senhores me respondam informando, muito cordial e profissionalmente, que um serviço bancário é muito diferente de uma padaria. Que a v/. responsabilidade é muito grande, que existem inúmeras exigências legais, que os riscos do negócio são muito elevados, etc, etc, etc. e que apesar de lamentarem muito e nada poderem fazer, tudo o que estão a cobrar está devidamente coberto por lei, regulamentado e autorizado pelo Banco de Portugal.
Sei disso.
Como sei, também, que existem seguros e garantias legais que protegem o v/. negócio de todo e qualquer risco. Presumo que os riscos de uma padaria, que não conta com o poder de influência dos senhores, talvez sejam muito mais elevados.
Sei que são legais.
Mas, também sei que são imorais. Por mais que estejam protegidos pelas leis, tais taxas são uma imoralidade. O cartel algum dia vai acabar e cá estaremos depois para cobrar da mesma forma.
--
Vitor Pinheiro


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Munique e as bicicletas

Duas notas prévias:
1. escrevo com um teclado alemao, pelo faltarao alguns acentos;
2. neste internet café nao é permitido usar o USB pelo que nao pude usar as fotos que tinha feito; em contrapartida o fantástico flickr é uma fonte inesgotável de fotografias, que me permitiu encontrar outras semelhantes às que pretendia usar.




Munique.

Se há coisa que um bávaro faz antes de planear algo a mais do que um dia de distancia é ver a previsão meteorológica. Por estes lados, com maior incidência perto das montanhas, o tempo muda com considerável rapidez, afirmado alguns não sei se com conhecimento de causa, que muda inclusivamente mais depressa do que uma mulher muda de opinião.

Por isso ao ver ontem a menina do tempo anunciar sol com fartura para hoje, logo desfilou perante os meus olhos essa intencao de pegar na bicicleta e percorrer a cidade. O que aconteceu até certo ponto. Da última vez que por aqui estive, faz uns meses, tinha deixado a bicla trancada num dos omnipresentes parques para bicicletas.





Estava furada, que é o que acontece quando se compra uma bicicleta usada por 50 euros, já com os pneus a puxarem ao careca. Resolveu-se facilmente este transtorno alugando uma bicicleta ao minuto. O DB, que é como quem diz a nossa CP, tem bicicletas espalhadas por parte significativa da cidade que podem ser alugadas através dum telefonema. Paga-se 7 centimos ao minuto, num máximo de 15 euros ao dia. Usam-se e deixam-se onde se quizer, depois de comunicar o fim do uso e respectiva localizacao.


Feita a chamada, dado o número de cartao de crédito e eis que se abre a fechadura electrónica e, com ela, as ruas da cidade. O plano para o dia era simples: partindo da estacao central, rumar à Odeonsplatz para tomar um café e ir almocar ao Jardim Ingles. Isto significa atravessar grande parte da cidade, o que seria consideravelmente complicado em muitos outros locais se tal se pretendesse fazer de bicicleta.

Mas Munique é particularmente bem organizada em termos de transportes públicos, pelo que o caos automovel nao é significativo, apesar dos 1.3 milhoes de pessoas que aqui vivem (dados de 2003). Acresce que as zonas de estacionamento estao bem delimitadas (e cada 12 minutos de estacionamento custa em média 50 centimos), a polícia multa com eficiencia quem estacionar em cima do passeio e, qual cereja no topo do bolo, as ruas sao compostas pelas vias de rodagem para carros, por uma ciclovia de cada lado da estrada e pelos habituais passeios para peoes.


Claro que o facto de quase toda a cidade ser plana ajuda em muito à popularidade deste meio de transporte, pelo que perante chuva, neve ou sol, basta a roupa adequada para se ir dum lado para o outro. De tal forma que inclusivamente passei por um grupo que participava numa visita guiada pela cidade, em bicicleta. Há algumas empresas dessas por aqui mas a primeira foi a Mike's Bikes.

Mais umas pedaladas e uma pausa para café com um pouco de leitura, neste caso o "Último Papa"de Luís Miguel Rocha e sobre o qual aqui direi algo noutra ocasiao.



Já o sol vai alto e a fome comeca a apertar. É hora da paparoca. O Englischer Garten, o Jardim Ingles, é um parque enorme no meio da cidade, com cerca de 3 Km2, ou seja aproximadamente o tamanho do parque de Monsanto em Lisboa. Com a diferenca que toda a área do parque está acessível para se passear, pedalar, desportos, banhos e, inclusivamente, para fazer surf numa pequena cascata com uns 5 por 10 metros de área! É caso para dizer que quem nao tem cao, caca com gato (LOL esta cedilha faz mesmo falta aqui) e o certo é que o pessoal faz fila de prancha na mao para esperar a sua vez até saltar para onda. Como o espaco é pouco, só vai um de cada vez, mas mesmo os mais experientes rapidamente dao o lugar ao seguinte após a inevitável queda.


Num dia soalheiro como este era de esperar que toda a gente andasse a aproveitar um dos últimos dias de sol, que o tempo chuvoso já se andou a insinuar. Nao sei se os lisboetas fariam o mesmo se em vez de Colombos e Vascos da Gama tivessem espacos assim. Se acreditarmos que uma populacao tem aquilo que exige, pela escolha de certos caminhos em detrimento doutros gracas ao voto eleitoral, entao a resposta é que possivelmente a nossa escolha nao recaíria nas actividades ao ar livre. E o pouco uso do Parque das Nacoes para aí aponta. Mas nao se podem tirar estas ilacoes só com as modestas aproximacoes que temos deste Englischer Garten.

O facto é que por aqui existe uma verdadeira cultura de "ar livre" e actividade física. Uma coisa infuenciará a outra, certamente. A par desta, existe uma outra, a dos Biergarten, os jardins da cerveja.

Algo comparável ao nosso hábito de ir ao café. A palavra Munique, München, deriva de monge, os que habitavam um certo convento que acabou por dar origem à cidade. E se há coisa que por aqui liga é monge e cerveja, tal como entre nós convento e doce. Estes eram grandes produtores de ceveja, que guardavam em pipos de madeira acondicionados debaixo de terra até o momento de a consumir. Por isso, Dona Ines, no milagre das rosas, nao podia ter dado aqui a desculpa "Sao rosas senhor" pelo simples facto que nestes jardins colhem-se barris de cerveja. Noutros tempos, claro. Hoje em dia, os Biergarten sao lugares onde se vai buscar uma canecada e a comidinha, seja um petisco ou uma refeicao.

Hoje a fome apertava um pouco pelo que saiu meio passo assado, uma salada de batata e uma litrada de Weißbier, a que chamamos de cerveja turva.

Uma tarde bem passada. Pedalei de volta ao hotel, telefonei para o servico do call a bike e como bom portugues que sou, já tinha ar livre a mais, já sentia a falta da clousua dum shopping. Sendo domingo e estando todo o comércio fechado, shoppings incluídos, tive que me contentar com a vinda para o internet café para escrever estas balélas.



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Munique I

Faz uma semana que por aqui ando. E' bom estar na Europa, mesmo que nao possa usar caracteres acentuados.

Hoje predominou o tempo cinzenzo mas conta que amanha o sol reinara´ por aqui. Uma boa ocasiao para umas pelingrafias `a la turista.

Espero que o USB daqui funcione, para partilhar algumas.