a política na vertente de cartaz de campanha

Buzz this

Education at a Glance 2004 - inesperada alteração dos dados base do relatório

Em Setembro de 2006 publiquei este texto: Os salários dos professores e a OCDE. Nele pego num dos ficheiros que serviu para elaborar o relatório «Education at a Glance 2004» e aplico-lhe esta metodologia:

Uma das folhas tem o título TableD3.1. Esta folha tem três grupos de colunas ("Primary education", "Lower secondary education", "Upper secondary general education"), cada qual subdividida em outras quatro. 12 colunas, portanto. Ordenando-se cada uma destas colunas por ordem numérica decrescente e anotando a posição em que Portugal se encontra, acabar-se-á por construir uma tabela que aqui apresento. Atenção: dependendo da forma de ordenação poderá haver diferenças (2 posições) devido à inexistência de dados em dois casos. Corrigi a tabela usando a média OCDE quando não existiam dados.

Resultou a tabela seguinte. Após breve análise da tabela D3.1 (do tal ficheiro excel), verificamos que os nossos rankings são (1 é o primeiro lugar e 30 o último lugar):



A
B
C
D


Início
carreira
Com 15 anos
experiência
Topo da
carreira
Relação (salário aos 15
anos de carreira) /
(PIB per capita)
1
ensino primário:22
16
5
4
2
ensino secundário
(1ª metade):
14
9
17
11
3
ensino secundário
(2ª metade):
16
14
19
16
Posição dos salários dos professores portugueses entre os países da OCD
(de acordo com os ficheiros disponíveis no site da OCDE em Setembro 2006)


Portanto a conclusão foi:
  1. Os professores primários portugueses com 15 anos de experiência eram os 4º mais bem pagos na OCDE;
  2. Já no básico e no secundário, a respectiva posição era 11º e 16º, portanto meio da tabela.
Na altura, o ME lançou aos sete ventos que os professores portugueses eram os 4º mais bem pagos da OCDE. Fe-lo baseando-se nesse relatório, o que foi uma clara leitura demagógica dos dados então publicados.

Esta semana, o ME recuperou a sua política de governar pela inveja e lá voltaram os salários dos professores à baila. Como tal, fui buscar tal tabela e republiquei-a em A habitual forma suja de fazer política. O leitor mcgs07 perguntou-me qual foi a metodologia usada para elaborar a referida tabela, o que me levou a descarregar novamente o tal ficheiro excel (o ficheiro que havia usado em 2006 estava noutro computador). Para grande surpresa minha, ao aplicar a mesma metodologia, verifiquei que a tabela produzida era diferente. Ter-me-ia enganado em 2006?

A nova tabela é:



A
B
C
D


Início
carreira
Com 15 anos
experiência
Topo da
carreira
Relação (salário aos 15
anos de carreira) /
(PIB per capita)
1
ensino primário:22 *
22 **
16
16
5
5
4
4
2
ensino secundário
(1ª metade):
23
14
20
9
4
17
5
11
3
ensino secundário
(2ª metade):
24
16
20
14
9
19
6
16
Posição dos salários dos professores portugueses entre os países da OCDE
(de acordo com os ficheiros disponíveis no site da OCDE em Setembro 2009)
* a negrito: valores de 2009

** valores de 2006

Ora, de acordo com esta tabela, as conclusões teriam que ser outras. E agora, qual versão está certa e qual está errada? Se em 2006 os dados publicados foram uns e agora são outros, são os números da OCDE dignos de confiança? Além disso, não esquecer que os dados destes relatórios são os disponibilizados pelos diversos estados (ver as fontes no referido relatório).

Finalmente, mais um dado inesperado: na linha referente a Portugal, os 3 níveis de ensino neste ficheiro excel têm exactamente os mesmos valores! Isto é, os salários dos professores primários, do ensino básico e do ensino secundário são exactamente os mesmos? Agradeço confirmação.

Entretanto, mandei mail à secção de educação responsável pelo relatório para saber se as alterações foram anunciadas, dem quem partiu a iniciativa de as realizar e porquê. Darei conta dos desenvolvimentos.

Mais informação:
Nota 1: nos primeiros dois Excel, há uma série de folhas que não estão visíveis nos ficheiros Excel. No Excel, as folhas existem mas foram escondidas. As folhas visíveis nos ficheiros são:
TableD3.1
TableD3.1 (continued)
TableD3.2a
TableD3.2b
TableD3.2c
TableD3.2d
TableD3.3

Nota 2: não tenho outra prova desta alteração excepto o facto de ter guardado em 2006 o ficheiro Excel. Vale o que vale para cada um. Para mim é uma prova completamente válida pois sei o que fiz.

Adenda
Ler também: Imaginem...

Adenda 24-07-2009
Recebi da parte da OCDE a resposta ao mail que lhes tinha enviado a pedir esclarecimentos:

Dear Sir,

Further to your message, please note that the data for Portugal in table D3.1 included in the 2004 edition of Education at a Glance did not changed.

Looking at the files you enclosed, it seems that in the file “…SET 2006.xls” you sorted the first 5 columns (country names and data for primary education) BUT not the following ones, so that data for lower and upper secondary do not relate to Portugal.

Yours sincerely

Etienne ALBISER

OECD
Directorate for Education
Indicators and Analysis Division

Como respondi a Etienne Albiser, admito que possa estar errado. Mas como podemos ver neste site de Internet Archive, o ficheiro em causa é dado como tendo sido alterado. Mas também analisei estes backups do Internet Archive e foi inconclusivo. Bom, neste momento dou o assunto por inconclusivo e encerrado.


17 comments :

  1. Fliscorno disse...
     

    Faltava o valor D3/2009 na segunda tabela. Corrigido.

  2. Apache disse...
     

    Em 2006 esteve no ‘site’ da OCDE outro relatório (com dados de 2004) sobre o qual fiz este ‘post’ http://terrasdelisboa.blogspot.com/2006/10/imaginem.html
    Garanto que os dados com que fiz esta tabela eram os que estavam no ‘site’ apesar de não ter feito download do referido relatório (P.S. é apenas a minha palavra, eu sei. Vale o que vale.) Como explico no ‘post’, os valores dos vencimentos indicados pela OCDE, (no caso português, alegadamente fornecidos pelo ME) são superiores aos reais.

    Tenho no computador o relatório de 2008, com dados de 2006.

  3. Fliscorno disse...
     

    Apache: obrigado pela informação. Acrescentei uma adenda com o link. Já agora, os dados de Portugal para estes relatórios são mesmo fornecidos pelo estado português (ME, GAVE, ...). Basta ler a ficha técnica do relatório. É uma autêntica pescadinha de rabo na boca: o ME propõe medidas com base em relatórios da OCDE, os quais são baseados naquilo que o ME lhes diz.

  4. Livresco disse...
     

    Jorge contacta o Paulo Guinote sobre este assunto...ele tem informação quente...saída do forno...

  5. mcgs07 disse...
     

    Este ficheiro que agora descarregou já tem as variáveis tratadas na tabela. Agradeço . Parece resultar claro que só no topo da carreira Portugal atinge bom posicionamento. O último racio tem muito que se lhe diga. Veja-se o caso da Índia que deve ser o primeiro no ranking. Vi só em diagonal o ficheiro mas a Índia salta à vista . Aliás os NPI apresentam valores parecidos. Não significa que os professores com 15anos de carreira sejam muito bem pagos nesses países, há é milhões de desgraçados que vivem muito abaixo do limiar da pobreza absoluta o que dá PIB per capita muito baixos.
    Quanto aos valores absolutos dos salários comparados (que são brutos, pelo menos parecem brutos a não ser que me estejam a roubar há bons largos anos) dependendo a situação líquida dos profs de cada país dos impostos pagos. Há ainda a dizer que a metodologia das paridades de poder de compra(PPP) tem muito que se lhe diga.

  6. mcgs07 disse...
     

    Desculpe os erros de redacção do comentário anterior, queria dizer que a situação líquida dos profs "depende" e não "dependendo".
    Quanto às PPP, Portugal esteve durante muitos anos numa situação muito precária no que respeita à habitação tendo depois melhorado muito. E isso faz muita diferença. As paridades de poder de compra valorizam as despesas de habitação de forma díspare de país para país. Os "cabazes" que servem de base aos índices PPP são diferentes de país para país e variam com o passar do tempo. Com a redução das taxas de juro, e a construção desmedida houve redução nos preços de mercado das despesas com habitação. É por isso, entre outras razões, que somos lordes comparados com os profs da Europa do leste e com os profs da Índia que não sei mesmo onde vivem já que uma casa na Índia se aproxima dos valores portugueses e às vezes os supera, dada a escassez.

  7. mcgs07 disse...
     

    Desculpe os erros de redacção do comentário anterior, queria dizer que a situação líquida dos profs "depende" e não "dependendo".
    Quanto às PPP, Portugal esteve durante muitos anos numa situação muito precária no que respeita à habitação tendo depois melhorado muito. E isso faz muita diferença. As paridades de poder de compra valorizam as despesas de habitação de forma díspare de país para país. Os "cabazes" que servem de base aos índices PPP são diferentes de país para país e variam com o passar do tempo. Com a redução das taxas de juro, e a construção desmedida houve redução nos preços de mercado das despesas com habitação. É por isso, entre outras razões, que somos lordes comparados com os profs da Europa do leste e com os profs da Índia que não sei mesmo onde vivem já que uma casa na Índia se aproxima dos valores portugueses e às vezes os supera, dada a escassez.

  8. Fliscorno disse...
     

    Livresco: Obrigado pelo alerta. O Paulo já me mandou mail e logo vou analisar.





    mcgs07: A abordagem de validar o PPP parece-me interessante e necessária para concluir sobre as conclusões do relatório. Os meus conhecimentos de economia são, no entanto, parcos. Mesmo assim, logo à noite debruçarei-me sobre isto.

  9. Manyfaces disse...
     

    Já está disponível o education at a glance 2008 (EAG-2008), porque não usá-lo?:
    http://www.oecd.org/document/9/0,3343,en_2649_39263238_41266761_1_1_1_37455,00.html

    O EAG 2004 referia-se a dados de 2002, enquanto que o EAG2008 tem dados de 2006, facilmente validáveis olhando para a tabelas salariais de 2006 (isso deve dar para filtar todas as eventuais teorias da conspiração). Eu encontrei facilmente as grelhas de 2005:
    http://www.fenprof.pt/?aba=27&cat=111&doc=610&mid=115

  10. Fliscorno disse...
     

    Não há teoria da conspiração alguma (excepto a alusão que aqui traz). Há factos que relato e existem as circunstâncias que que me levaram a encontrá-los.

    Agradeço o link das tabelas salariais que ainda não tinha.

    Quanto a olhar para o relatório de 2008, cá vai mais uma vez: este texto é sobre o facto de os dados base para o relatório de 2006 terem sido sujeitos a alterações.

  11. Manyfaces disse...
     

    Pois então arregacei as mangas para tentar apurar até que ponto os dados usados no EAG-2007 (dados de 2005) estão de acordo com as grelhas salariais Portuguesas de 2005.

    Para o relatório e dados do EAG 2007 usei o link:
    http://www.oecd.org/document/30/0,3343,en_2649_39263238_39251550_1_1_1_1,00.html

    Para as grelhas salariais usei o link da fenprof que indiquei no meu comentário anterior.

    Concentrei-me no topo de carreira que é mais fácil de comparar:
    De acordo com a grelha de 2005 o escalão 10, topo de carreira, tinha uma remuneração bruta anual de 40000EUR, o que descontando a CGA (10%) dá um total antes de IRS de 36000EUR.
    De acordo com o EAG2007, pag 394, são os valores brutos antes de IRS que servem de base ao relatório.
    Na tabela D3.1 do relatório os valores brutos aparecem em USD usando o factor de conversão PPP. Para evitar essas manigâncias do PPP procurei o valor em EUR. Ele pode ser encontrado no Anexo 2, tabela X2.a(cont), que indica 35731EUR como o valor bruto para topo de carreira, ou seja, um valor muito semelhante aos 36000EUR que calculei a partir da tabela da fenprof.

    Assim sendo acho que se poderá dizer com alguma segurança que os dados da OCDE estão coerentes com a realidade salarial Portuguesa, pelo menos para os salários de topo. Não faço ideia daquilo que possa ter acontecido com as tais modificações das tabelas de 2002. Podem ter corrigido de facto uma coisa que estava errada.

    Portanto, acredito que as conclusões que se podem tirar do EAG 2007 são consistentes com a realidade, o que partindo do chart D3.2, me leva a concluir:
    - Em salario bruto e tendo em conta o PPP, Portugal aparece abaixo da França, numa posição modesta.
    - Já se introduzirmos o PIB per capita, aparecemos em 3º lugar com a Alemanha, só ultrapassados por 2 Paises (isto para carreira com 15 anos de experiência).

    O que em economês se traduz: o salário bruto é comparativamente baixo porque o Pais é pobre, mas em termos relativos a profissão de professor é mais valorizada (salarialmente) em Portugal do que na esmagadora maioria dos Paises da OCDE. Ou seja, emigar é sempre uma boa ideia para quem queira ganhar mais, mas para quem decida ficar em Portugal ser Professor não está nada mal pago não Senhor...

    PS: o meu caro P. Guinote, com quem já tive oportunidade de discutir estes assuntos quando o Umbigo estava no começo, tem sempre este condão de me fazer perder tempo com estas coisas... mas espero que tenha valido a pena.

    Para PIBs e comparações cá estarei sempre... e sobre o assunto em geral já escrevi em tempos no Umbigo:

    http://educar.wordpress.com/2007/02/27/educacao-mentiras-e-estatisticas/

  12. Fliscorno disse...
     

    Manyfaces, obrigado pela análise. Tinha uma aqui uma nota mental para a fazer quando me sobrasse tempo e asim fica facilitada. Tenho por hábito verificar estas coisas de contas e não tem a ver com desconfianças. Faz parte da minha forma de percepcionar a realidade. Outra nota mental que aqui tenho para verificações diz respeito à validação dos números do PPP.

    Quanto a esta conclusão

    «Já se introduzirmos o PIB per capita, aparecemos em 3º lugar com a Alemanha, só ultrapassados por 2 Paises (isto para carreira com 15 anos de experiência).»

    está em causa o quociente SAlÁRIO/PIB.

    Este quociente pode ser elevado por duas razões: salários muito altos ou PIB muito baixo. Portanto, que sentido faz comparar ordenados por comparação com o PIB? É a produtividade que se tem que elevar, não são os salários que se têm que baixar.

  13. Fliscorno disse...
     

    Em todo o caso, não conheço* mais nenhuma profissão onde esta análise seja usada para decidir políticas. Porque não vemos estudos semelhantes para deputados, ministros, juízes, assessores, médicos, autarcas, etc etc?

    * leia-se "não tem havido notícias na comunicação social"

  14. Fliscorno disse...
     

    Estive a ler o seu interessante texto no Educar. É precisamente por causa de a OCDE basear as suas conclusões nos dados fornecidos pelos diversos estados, com a possibilidade das tais "pilulas douradas", que vou mantendo esta atitude de verificar e questionar.

  15. Manyfaces disse...
     

    "Este quociente pode ser elevado por duas razões: salários muito altos ou PIB muito baixo. Portanto, que sentido faz comparar ordenados por comparação com o PIB?"

    Acho que esta comparação é sempre muito útil porque nos dá uma medida comparativa de como se distribui a riqueza num Pais, quais são as suas prioridades. Se o quociente for maior em Portugal do que na Espanha, então os Profs na Espanha podem ganhar bem mais em EUR mas o peso dos salarios de Profs é mais elevado em Portugal. Pois sendo o PIB médio per capita uma medida de riqueza se alguém ganha acima do PIB então haverá por certo alguém que ganha abaixo... Este tipo de indicador permite sempre comparar as políticas salariais dos Paises para uma dada profissão.

    "É a produtividade que se tem que elevar, não são os salários que se têm que baixar."

    Concordo, mas essa frase levar-nos-ia longe na discussão. Acaba por ser sempre dependente da visão política de cada um: para a esquerda os salários vêm primeiro e a produtividade depois, a direita tende a achar o contrário. Uma coisa todos terão de concordar: a riqueza de cada Pais é que terá em ultima instância de determinar os seus salários (e se não for no curto prazo vai ser sempre no longo prazo porque infelizmente estas regulações acabam sempre por acontecer...)

  16. Fliscorno disse...
     

    Concordo que os indicadores são úteis. Mas como já antes referira, não tenho notado a mesma metodologia para outras profissões. O que me leva a pensar que esta particularização faz parte da estratégia para impor as reformas educativas. Governar pela inveja não me parece saudável.

  17. Fliscorno disse...
     

    Adicionei uma adenda com um esclarecimento da OCDE.

Enviar um comentário